Crítica do Filme Misericórdia

O Filme Misericórdia é uma das obras mais provocantes e excêntricas de Alain Guiraudie, diretor conhecido por sua ousadia ao explorar as fronteiras entre o desejo, o absurdo e o suspense moral.

Eleito pela Cahiers du Cinéma como o melhor filme de 2024, o longa chega ao público brasileiro cercado de curiosidade e expectativa — um verdadeiro banquete para quem aprecia o cinema autoral francês, repleto de humor ácido e reflexões filosóficas sobre a natureza humana.

Ficha Técnica

Gênero: Comédia negra, Thriller, Mistério
Ano: 2024
Nota IMDb: 6,7/10
Onde Assistir: Prime Video / Mubi
Duração: 103 min

Leia a Crítica do Filme Acabe com Eles.

O Filme Misericórdia começa com o retorno de Jérémie (Félix Kysyl) à sua cidade natal após a morte de um antigo patrão, um padeiro local.

Sua presença desperta desconfiança e curiosidade entre os moradores — especialmente da viúva Martine (Catherine Frot) e de seu filho Vincent (Jean-Baptiste Durand). Aos poucos, a trama se transforma em um labirinto de tensões sexuais, segredos e relações ambíguas, onde cada personagem parece esconder algo.

O mistério cresce à medida que Guiraudie brinca com as expectativas do espectador, oferecendo pistas falsas, gestos insinuantes e um humor sutil que contrasta com o peso das situações.

Diferente dos polars tradicionais (os “filmes noir” franceses), Guiraudie subverte o gênero e cria um suspense filosófico que mistura erotismo, crime e ironia social.

O vilarejo francês, com suas paisagens outonais e bosques dourados, serve de metáfora para o desejo e a repressão, cenário onde o que é dito vale menos do que o que é silenciado.

Claire Mathon, diretora de fotografia, transforma cada plano em uma pintura viva — a luz difusa e as sombras profundas traduzem o jogo constante entre o pecado e a redenção.

O elenco é um espetáculo à parte. Catherine Frot entrega uma atuação delicadamente trágica, enquanto Félix Kysyl constrói um protagonista enigmático, simultaneamente atraente e ameaçador.

Jacques Develay, como o sacerdote Griseul, é o eixo moral distorcido que traz algumas das cenas mais memoráveis — especialmente no confessionário, onde fé e desejo se misturam com humor quase blasfemo.

O Filme Misericórdia também surpreende por equilibrar o grotesco e o poético com rara naturalidade. O diretor insere situações absurdas — como a coleta simbólica de cogumelos ou a perseguição circular pelo vilarejo — que evocam o teatro do absurdo, transformando a investigação policial em uma reflexão sobre o instinto, o corpo e a culpa.

Tudo soa simultaneamente real e onírico, como se o público estivesse preso dentro do mesmo feitiço que impede Jérémie de partir.

Ao final, Guiraudie oferece uma conclusão que é menos uma resposta e mais uma provocação: o riso surge não da comédia, mas do desconforto.

Misericórdia é um estudo sobre o desejo em sua forma mais primitiva e contraditória, uma história de amor e morte conduzida com a serenidade de quem entende que o escândalo é apenas um reflexo da nossa hipocrisia coletiva.

Com humor negro, erotismo contido e uma atmosfera de mistério constante, o Filme Misericórdia reafirma Alain Guiraudie como um dos cineastas mais originais da França contemporânea — capaz de transformar o banal em transcendência e o escandaloso em pura poesia.

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Perguntas Frequentes

O que torna o Filme Misericórdia diferente de outros suspenses franceses?

O Filme Misericórdia se destaca ao romper com as convenções dos suspenses franceses tradicionais. Em vez de seguir uma trama linear e cheia de revelações claras, Alain Guiraudie aposta em um suspense filosófico, onde o mistério se mistura com elementos de erotismo, ironia social e absurdo teatral, criando uma experiência sensorial e provocadora.

Qual é o papel do vilarejo na narrativa de Misericórdia?

No Filme Misericórdia, o vilarejo funciona como um personagem simbólico. Suas paisagens outonais e trilhas silenciosas refletem a repressão e o desejo dos protagonistas. O ambiente fechado e melancólico reforça a tensão constante entre os moradores e intensifica o sentimento de que algo profundamente perturbador está escondido sob a superfície da rotina.

Como o humor é usado em Misericórdia?

O humor em Misericórdia é sutil, muitas vezes desconcertante, e aparece justamente para acentuar o desconforto. Alain Guiraudie utiliza o humor negro para questionar normas sociais, religiosas e morais, transformando cenas aparentemente banais em momentos de crítica e estranhamento — como na coleta simbólica de cogumelos ou nas interações carregadas de ambiguidade.

Qual é o significado do título “Misericórdia”?

O título “Misericórdia” carrega um duplo sentido: remete tanto à clemência divina, sugerida pelo personagem do sacerdote, quanto à contradição humana, presente nos desejos ocultos dos personagens. O filme questiona se há perdão possível para aquilo que nem sempre se admite, tornando o nome uma provocação moral e existencial.

O Filme Misericórdia tem cenas explícitas?

Embora trate de temas ligados ao desejo, culpa e repressão, o Filme Misericórdia evita cenas gráficas. O erotismo é trabalhado de forma contida e simbólica, muitas vezes sugerido em olhares, gestos e situações absurdas. Essa abordagem intensifica a tensão psicológica, sem recorrer ao explícito para causar impacto.

Quem deve assistir ao Filme Misericórdia?

O Filme Misericórdia é indicado para quem aprecia cinema autoral europeu, com narrativas provocativas e linguagem visual sofisticada. Ideal para espectadores que buscam reflexões sobre a natureza humana, fora dos moldes convencionais. Não é um suspense tradicional, mas sim uma obra que convida à interpretação e ao incômodo.

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